Wednesday, February 25, 2009

Outra vez, a Votorantim apela ao hospital governo

Enviado por Carlos Tautz - 22.1.2009
Outra vez, a Votorantim apela ao hospital governo

Pela segunda vez em menos de duas semanas, o governo federal e a Votorantim mostram pragmaticamente como se faz "política" econômica no Brasil. É assim. Um grande agente econômico privado administra mal suas contas, mas fecha o balanço devido a salvadores e generosos aportes dos cofres públicos. No dia 9, o Ministro Guido Mantega anunciou a compra de 49,99% do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil. E, nesta terça-feira, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, revelou que injetaria R$ 2,4 bilhões para a Votorantim Papel e Celulose (VCP) comprar a Aracruz Celulose, que de forma secreta contraiu uma dívida de 2,13 bilhões de dólares porque apostou no dólar barato e fez desastradas transações com derivativos cambiais.

Ambos os negócios foram travestidos dos melhores argumentos."Precisamos apoiar empresas brasileiras em tempos de crise", defenderam-se alguns. "Estamos construindo multinacionais brasileiras", tentaram elaborar outros. Mas, de uma forma ou de outra, o resultado é o mesmo. O Estado e suas instâncias financeiras operaram sem qualquer estratégia pública e transparente. Funcionaram como enfermeiros de capitalistas falidos porém espertos e com amigos no lugares certos. Desqualificaram com suas próprias ações importantes bancos públicos, que deveriam servir de instrumentos de financiamento do desenvolvimento. Terminaram por abrir a guarda para aqueles que sempre entoam a cantilena da suposta maior competência dos agentes privados para lidar com crédito.

Por onde se olha, as duas operações salva-Votorantim, a da Aracruz em particular, estão cercadas de contradições e pontos mal explicados.

1.em um contexto de crise, em que só em dezembro de 2008 quase 800 mil pessoas no Brasil perderam seus empregos, o BNDES (banco 100% estatal) investe uma montanha de dinheiro público em um setor que gera poucos empregos, comparado a outras áreas da economia;

2.com o negócio, o BNDES, passa a ter uma participação de 26% na Aracruz, uma empresa que, além de ter uma enorme dívida em dólar (moeda que está em alta), atua no setor de commodities, que está em baixa no mercado internacional. A tonelada de celulose, produto da Aracruz, caiu no mercado asiático de 810 dólares em junho de 2008 para 470 em dezembro passado. "O valor de mercado da empresa despencou de R$ 8.759 bilhões em 25 de setembro de 2008 para R$ 4.11 bilhões na segunda, 19 (O Globo, 21/01/2009);

3.enfrentando dificuldades para levantar recursos e emprestar a outras empresas, o BNDES resolve colocar 2,4 bilhões de reais em uma empresa que se gaba de ter 8 bilhões em caixa (idem). Como se não bastassem as contradições de cunho econômico, há, ainda, problemas de fundo ético na operação. O BNDES aporta mais e mais recursos em uma empresa onde já detinha 12,5% do capital votante – ou seja, empresta a si mesmo. Além disso, a Aracruz tem um histórico caudaloso de desrespeito a direitos humanos e à legislação ambiental É tão absurdo o apoio que historicamente o Banco dá à Aracruz, que até o presidente Luciano Coutinho comprometeu-se em 2007 a rever a relação do BNDES com a empresa.

"O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai analisar denúncias de movimentos sociais de que empreendimentos financiados pelo banco estariam associados à expulsão de comunidades tradicionais, como quilombolas e indígenas, de suas terras. O compromisso foi feito hoje (8) pelo presidente do banco, Luciano Coutinho, em encontro com os movimentos sociais integrantes da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais", registrou a Agência Brasil em 8 de agosto de 2007, pouco tempo depois de Coutinho tomar posse.

No encontro, o economista afirmou que "tem orientação do próprio presidente da República para que o BNDES não "compactue" com projetos que tenham irregularidades como trabalho escravo ou infantil, ou mesmo que não sigam critérios ambientais, em setores como o etanol, papel e celulose e siderurgia".

Coutinho foi convicto: "Questionado sobre projetos na área de papel e celulose acusados pelos movimentos de desrespeitar essas normas, como os da empresa Aracruz Celulose, no norte do Espírito Santo, Coutinho respondeu: "Estamos abertos a entender e não apoiar esses projetos que vieram do passado e que precisam de um novo paradigma de crescimento". Junto com a Petrobras, o BNDES é o mais importante indutor do desenvolvimento brasileiro. Se bem orientados, seus aportes teriam a capacidade de estimular o mercado interno e quase blindar a economia brasileira dos piores momentos da crise internacional. Mas, a depender de operações opacas como essa da Aracruz, que não atendem a qualquer critério mínimo de lógica econômica e concentra brutalmente a renda nas mãos dos controladores da Aracruz, aqueles que defendem a privatização dos recursos do FAT, operados pelo Banco, dormirão nos próximos dias com um enorme sorriso de orelha a orelha.

Carlos Tautz é jornalista

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